Saúde no transporte: o preço invisível de ir e vir
A rotina de deslocamentos nas cidades e nas rodovias brasileiras cobra um preço alto da saúde de trabalhadores, motoristas profissionais e usuários do transporte coletivo. Estudos mostram que tanto o transporte público urbano quanto o transporte rodoviário de cargas e passageiros se associam a maior risco de adoecimento físico e mental, acidentes e queda na qualidade de vida.
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1/9/20263 min read
Mais do que um tema de trânsito ou logística, a forma como o país organiza sua mobilidade é hoje um determinante social de saúde. A combinação de longas jornadas, congestionamentos, infraestrutura precária e falta de políticas de prevenção expõe milhões de pessoas diariamente a situações de estresse, insegurança e desgaste físico.
Motoristas sob pressão: jornadas longas e corpo no limite
Motoristas de ônibus urbanos e caminhoneiros estão entre os grupos mais vulneráveis. Pesquisas apontam que esses profissionais sofrem com altos níveis de estresse, irritabilidade, fadiga, dores musculoesqueléticas e maior risco de doenças cardiovasculares e gastrointestinais.
Entre os principais fatores de risco destacam-se:
Carga de trabalho excessiva: longas jornadas, poucas pausas e pressão por cumprimento de horários e metas de entrega.
Condições ergonômicas inadequadas: posturas forçadas, permanência sentada por muitas horas, movimentos repetitivos de braços e pernas e exposição contínua a vibração e ruído dentro dos veículos.
Contexto viário adverso: trânsito intenso, congestionamentos, más condições das vias, clima e normas rígidas de fiscalização geram sobrecarga mental e física.
Esse cenário favorece desde dores crônicas em coluna, joelhos e ombros, até quadros de burnout e ansiedade, com impacto direto na segurança viária e na vida pessoal desses trabalhadores.
Transporte público, tempo perdido e saúde do trabalhador
Para quem depende diariamente de ônibus, metrô e trens, o deslocamento casa‑trabalho também é fator relevante de adoecimento. Revisões de estudos sobre transporte público e saúde do trabalhador no Brasil mostram que a má qualidade do serviço – lotação, atrasos, desconforto e longos tempos de viagem – prejudica a qualidade de vida e a produtividade.
Entre os efeitos mais frequentes estão:
Aumento de cansaço e irritabilidade ao fim da jornada, reduzindo tempo de descanso, lazer e convivência familiar.
Maior exposição a situações de violência, acidentes, ruído excessivo e oscilações bruscas, com repercussões físicas e emocionais.
Percepção de injustiça e falta de cuidado do poder público, o que impacta a saúde mental e a confiança nas instituições.
No Brasil, a legislação do Sistema Único de Saúde reconhece que cabe ao Estado promover ações de promoção, proteção e recuperação da saúde dos trabalhadores expostos a riscos associados às condições de trabalho – o que inclui as condições de transporte para ir e voltar do emprego.
Acidentes nas rodovias: um problema de saúde pública
As rodovias brasileiras registram anualmente dezenas de milhares de acidentes, com milhares de mortes e feridos, configurando um grave problema de saúde pública e alto custo econômico e social. Dados de órgãos de segurança viária mostram que, em um único ano recente, ocorreram quase 90 mil acidentes e mais de 6 mil óbitos apenas em rodovias federais.
Os fatores que contribuem para esses eventos são múltiplos:
Fator humano: fadiga, uso de substâncias, excesso de velocidade e comportamento de risco na direção.
Fator veicular e viário: falta de manutenção dos veículos, sinalização deficiente, conservação precária de pistas e ausência de infraestrutura adequada.
Fator socioeconômico e institucional: fiscalização insuficiente, pressão econômica sobre fretes e horários e fluxo crescente de veículos nas principais rotas.
Cada acidente representa não apenas uma estatística, mas vidas interrompidas, famílias afetadas e um impacto relevante sobre o sistema de saúde, que precisa absorver atendimentos de emergência, internações e reabilitação.
Caminhos para um transporte mais saudável
Especialistas e entidades do setor defendem que saúde e segurança no transporte sejam tratadas como investimento, não como custo. Há um conjunto de ações possíveis, tanto no transporte coletivo urbano quanto no transporte rodoviário de cargas e passageiros.
Entre as principais frentes estão:
Políticas de prevenção e vigilância em saúde do trabalhador: programas específicos para motoristas profissionais, com monitoramento de condições de trabalho, exames de saúde periódicos e acompanhamento de riscos psicossociais.
Ergonomia e infraestrutura: adequação de assentos, painéis e comandos, redução de ruído e vibração, melhoria da conservação das vias e criação de pontos de apoio com estrutura digna para descanso.
Gestão de jornada e saúde mental: limites efetivos de tempo ao volante, pausas obrigatórias, apoio psicológico, incentivo à atividade física e ações educativas sobre sono, alimentação e uso de substâncias.
Mobilidade urbana sustentável: fortalecimento do transporte coletivo de qualidade, com menor tempo de viagem e maior conforto, e incentivo a modos ativos, como caminhar e pedalar, reduzindo poluição, acidentes e doenças relacionadas ao sedentarismo.
Tratar a saúde no transporte como eixo central de políticas públicas, estratégias empresariais e planejamento urbano significa reconhecer que cada trajeto é parte do processo saúde‑doença da população. Um sistema de mobilidade mais seguro, confortável e humano não só salva vidas nas estradas e nas ruas, como também melhora o bem‑estar e a produtividade de quem depende, todos os dias, de ir e vir.
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